Em que futuro você acredita?

Seu futuro está em suas mãos ou escrito nas estrelas?

Somos fascinados pelo passado.  Atribuímos sabedoria a tudo que nos antecede, entendemos o mundo por meio de contos e histórias, criamos numerosas coleções de livros de mais de quinhentas páginas contando o passado do ser humano, formamos profissionais especializados em sair cavando objetos de antepassados pelo mundo e consideramos cultos aqueles que gostam de artistas que morreram há um século.

Tudo sobre nossa cultura grita nostalgia. Somos fascinados por nossas memórias. Tanto que alguns acabam se perdendo na linha e ficando presos no tempo.

É por isso que, na hora de olhar para o futuro, a gente até se perde. Não estamos acostumados com o futuro. Ele é a quebra, a jornada ao desconhecido. 

Ver o futuro não tem nada a ver com bolas de cristal ou máquinas do tempo – pelo menos não aqui. Ver o futuro envolve um conjunto de habilidades. 

E uma dessas habilidades volta-se diretamente para a maneira como percebemos o próprio tempo. Essa coisa de separar o tempo em presente, passado e futuro, na verdade, é uma grande construção social da qual nem todos temos plena consciência. 

Usamos o passado como guia para ações que fazemos no presente, que acabam influenciando o jeito que imaginamos o futuro. Por essa razão, entender nossa concepção de tempo requer olhar para a definição desses três caras aqui: 

Nem todo mundo vê a mesma coisa quando olha para o futuro, afinal, existem muitos conceitos do que ele é. Estudar, ver e entender o futuro nunca foi uma questão de adivinhação, e nem uma ciência exata. 

Você já parou para pensar no que é futuro para você?

A forma como enxergamos o futuro é fruto de construções sociais de diferentes narrativas. Compreendendo estas narrativas e suas mudanças culturais, conseguimos ter uma visão do posicionamento da sociedade ao longo do tempo. 

O pensador Raymond Williams, responsável por uma série de análises acerca da teoria cultural contemporânea, classifica as narrativas culturais da sociedade em três categorias: 

  • AMOR: antigamente, acreditava-se na ideia de que há um amor para sua vida toda, uma alma gêmea, que jamais poderá ser separada de sua cara metade. Tipo amor impossível de novela que sempre acaba ficando junto, sabe?
  • TRABALHO: algumas das gerações tinham como ideal de carreira trabalhar em grandes empresas corporativas, crescendo e permanecendo dentro delas por no mínimo dez anos. Era comum acreditar que o fato de um profissional ter conseguido permanecer naquela empresa por tanto tempo fazia dele um profissional ainda mais confiável e competente.
  • AMOR: o casamento hoje é algo ainda desejável, mas que pode ser anulado em caso de problemas. Já não mais se acredita na união eterna de duas pessoas ou na honra quase que irracional de se manter relacionamentos que não fazem mais sentido para as duas partes como antigamente.
  • TRABALHO: as pessoas começaram a perceber que mudar de emprego com alguma frequência poderia ser uma coisa positiva, uma oportunidade de crescimento, desenvolvimento e até um sinal de adaptabilidade e ambição.
  • AMOR: está caindo a ficha de que talvez a gente nem precise se casar para ter uma família, ou que podemos nos relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo em relações abertas ou poliamorosas. O ideal do amor agora tem muito mais a ver com fluidez e liberdade.
  • TRABALHO: a área profissional está seguindo um fluxo parecido com o do amor. A onda atual são os novos formatos de trabalho, a autonomia das startups e do trabalho freelance, que revelam a necessidade de independência e liberdade das novas gerações. 

Você vai notar que estas narrativas podem ser observadas dentro de diversos contextos: amor, família, moradia, trabalho etc., e que todos os exemplos apresentam padrões muito interessantes. Estes padrões dizem muito sobre a evolução das gerações e suas concepções do mundo. 

E aquilo que acreditamos, a história que contamos, ou melhor, as narrativas pelas quais as nossas realidades coletivas e individuais são construídas, ajuda a definir nosso conceito a respeito não só do passado e do presente, mas também do futuro. 

Em que futuro você acredita? 

  • Um tarô te diz que o amor da sua vida é o seu vizinho(a) de infância que hoje mora na Austrália. Você compraria sua passagem sem volta agora mesmo? 
  • Um grande estilista fala na televisão que a moda do futuro é se vestir dos pés à cabeça de laranja desbotado. Você sairia para encontrar uma peça nova para o seu guarda-roupa? 
  • Alguém te diz que, se você decidir que vai ficar rico vendendo jujubas, você vai, de fato, ficar rico vendendo jujubas. Você acreditaria? 

Estas três perguntas são uma brincadeira, mas revelam três conceitos de futuro que estão bastante presentes em nossa cultura:

  • Futuro determinado
    Algumas pessoas acreditam que o futuro é determinado por um destino que foge das nossas mãos. Está tudo escrito nas estrelas, e nosso papel é simplesmente descobrir o que está escrito. Não há nada que possamos fazer para mudá-lo. É uma verdadeira escrita em pedra, quase como um conto de fadas com um final sobre o qual não temos nenhum controle.
    Nem escrever mais um parágrafo a respeito mudaria alguma coisa.
  • Futuro aberto
    Poderíamos chamar o futuro aberto de futuro de possibilidades, porque é nisso que esse pessoal acredita: no poder das possibilidades e dos caminhos. Para eles, o futuro não pode ser visto apenas como uma construção social, pois depende de coisas que já estão em curso e de escolhas que fazemos agora.
    Este futuro é, de fato, aberto. Está sendo criado agora – enquanto você está lendo isso aqui – por toda a nossa sociedade. Por isso é tão importante que a gente não seja passivo quanto ao presente. Precisamos lutar por um futuro que acreditamos, que queremos viver e deixar como legado para as gerações futuras.
  • Futuro totalmente aberto
    Para quem acredita em um futuro totalmente aberto, o aquecimento global e a poluição dos oceanos são fatos descartáveis. Ou é um exagero, ou não é suficientemente importante, ou dá para resolver rapidinho.
    A tribo do futuro totalmente aberto tem plena convicção de que somos nós que fazemos o amanhã, independente das coisas que já estão em curso. Segundo eles, somos capazes de mudar totalmente o futuro.
    As calotas polares podem ter derretido completamente no oceano, mas o futuro do planeta depende apenas da atitude do cara que acredita no futuro totalmente aberto. Em outras palavras: o futuro começa agora. 

Identificou-se com algum deles? 

Os pesquisadores de tendências e os futuristas, que estão sempre de olho no futuro e na maneira como ele já se manifesta hoje, acreditam em um futuro aberto, também influenciado por nossas atitudes. 

Ou seja, quando o assunto é pesquisa de tendências, estamos falando de futuros possíveis. Sim, futuros. Vários deles. 

A pesquisa de tendências investiga a manifestação das mudanças de narrativas da sociedade como inspiração para vislumbrar alternativas de futuro, dando origem a diferentes cenários prováveis. Mas ele também está submetido à imprevisibilidade do mundo, correndo o risco de seus cenários nem sempre baterem com a realidade. 

No curso “Pesquisador de tendências: Como identificar e mapear comportamentos para prever mudanças”, falamos muito sobre o futuro, seus cenários e manifestações. 

Partindo daí, é importante que você saiba que a pesquisa de tendências não pretende prever apenas carros voadores e robôs domésticos. 

É possível olhar para o futuro por dois focos:

Aqui, nosso foco são os near futures, aqueles que podemos mapear e observar suas primeiras manifestações com facilidade. 

Agora que já refletimos sobre o futuro, você vai entender o papel do pesquisador de tendências no meio disso tudo e sua verdadeira relação com o futuro na prática. Pronto?

Todo conteúdo desse post faz parte do conteúdo do curso “Pesquisador de tendências: Como identificar e mapear comportamentos para prever mudanças

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